Dependente de droga há mais de uma década, um jovem de 27 anos, morador da cidade de Itupeva, deu
um passo rumo a um futuro diferente na manhã da última sexta-feira. Depois de árdua batalha consigo mesmo, decidiu recorrer a tratamento especializado em uma clínica de recuperação. Mas não chegou até o local sozinho. Precisou de ajuda e o papel da Guarda Municipal (GM) da cidade foi essencial - e inédito - para tornar possível o sonho de recomeçar a vida.
Pontualmente às 8h50 de anteontem, os coordenadores da GM de Itupeva, Antônio Carlos Mangini e Nilson Liboni, estavam na frente de uma residência no Jardim Samambaia, prontos para levar dois irmãos viciados em crack para uma clínica em Jarinu, a Missão Belém. O portão marrom escuro foi aberto por uma senhora, que com os olhos lacrimejando relatou o receio de seus filhos mudarem de ideia, embora tudo já tivesse sido combinado previamente com a GM para o transporte até o local de reabilitação.
O pedido de socorro de uma mãe diante da triste situação vivenciada pelos filhos poderia ter sido repassado pelos guardas para o setor de assistência social da prefeitura. Na prática, normalmente é o que ocorre na maioria das cidades quando a questão é dependência química.
Mas o problema tem sido encarado de forma diferente pela atual administração do município vizinho de Jundiaí, que tem como prefeito Ricardo Bocalon (PT). "É um novo formato de trabalho que tem sido colocado em prática, de não fazer só a parte preventiva, mas também ajudar essas pessoas que precisam", afirma Mangini, comentando que a orientação do prefeito é de que haja interação entre todas as secretarias. "Para quê deixar o caso para a assistência social se podemos atender ao pedido da família?", indaga.
A possibilidade de oferecer esse tipo de auxílio a dependentes químicos, segundo os guardas, surgiu após parceria com a clínica Missão Belém. "Conhecemos o trabalho deles, vimos que era muito sério e descobrimos que não há problema de falta de vagas. É um serviço gratuito, eles vivem de doações e não fecham as portas para ninguém", ressalta Mangini, entrando então na casa da família para conversar com os jovens usuários.
"Eu já tinha procurado a GM antes querendo que levassem meus filhos à força. Eles explicaram que não poderia ser desse jeito. Então, assim que os meninos mudaram de ideia, pedi socorro novamente", conta a mãe dos jovens, demonstrando o desespero em seu tom de voz.
Segundo ela, a vida da família se transformou nos últimos quatro anos, quando a dependência dos dois filhos se tornou mais séria. Na casa, além dos pais e dois irmãos, moram também a mulher de um deles, de 28 anos, e um bebê de quatro meses. "Não tem condição. Eles vendem tudo, fumam crack dentro de casa. Já foram cinco televisões e meu quarto precisa ficar sempre com um cadeado para não levarem minhas coisas", lamenta a mãe.
De acordo com a mulher de um deles, há períodos em que os irmãos desaparecem, passam até cinco dias fora de casa e então retornam. "Eles voltam destruídos, sujos. Ontem, meu marido nos falou que queria mudar de vida e ir para a clínica. Mas hoje já mudou de opinião a esse respeito", afirma, segurando a filha recém-nascida no colo e dizendo ter medo de qual será o futuro da criança.
Depois de meia hora de conversa, apenas um dos jovens saiu de dentro da casa com uma sacola de roupas nas mãos. Ele se despediu da mãe e entrou no carro da Guarda Municipal, estacionado em frente. "É um alívio ver que pelo menos um deles está indo se cuidar.
Eu sou nordestino daqueles antigos, sabe, e maconheiro não é bem visto desde os meus tempos de garoto", desabafa o pai, aposentado. E a mãe completa: "Estou contente por um, mas triste porque o outro precisava ir junto." Na casa, a única renda da família vem da aposentadoria do pai dos usuários e das faxinas feitas pela mãe deles.
Recomeço
Depois de 40 minutos de viagem, o jovem de Itupeva chegou ao seu destino, em Jarinu. No local, assim que saiu do carro da GM, foi recepcionado por voluntários da casa. Junto com ele, a pé, chegou mais um homem de cerca de 40 anos, também só com uma sacola de roupas nas mãos, pedindo ajuda para se livrar do mundo das drogas. Essa é a rotina na Missão Belém de acordo com o assessor José Maciel Davano, ex-dependente químico. No local, atualmente vivem cerca de 380 homens.
"Essa é uma atitude radical pra mim. Sei que vai ser difícil, mas quero mudar de vida. Hoje eu não tenho nada, estou cansado. Tenho 27 anos e não trabalho, não tenho um carro, uma moto, nem chinelo para colocar nos pés esses dias eu tinha", relata o usuário. Ele diz ter ciência do sofrimento que causa aos pais, mas alega não conseguir sair da situação de dependência.
"Só quem vive isso para saber como é complicado. Se eu soubesse que seria assim, nunca teria começado a usar. Foi primeiro o cigarro, aí veio a bebida, a maconha, a cocaína, até chegar no crack e não ter mais volta", confessa.
Durante 20 dias, o jovem enfrentará um período de abstinência segundo o assessor da Missão Belém. Nesse período, ele não pode receber visitas da família. É a fase mais difícil e, mesmo quando ela é vencida, somente 40% dos homens continuam internados de acordo com Maciel. "O tratamento dura para sempre, porque a pessoa sempre será ex-dependente. A luta é diária", comenta, explicando que, apesar dessa realidade, no local a estimativa de tempo para o tratamento é de nove meses.
Ação contra o tráfico
Além da atuação da GM de Itupeva para ajudar dependentes químicos, a Guarda também tem intensificado o combate ao tráfico de acordo com Liboni. E o resultado tem sido bastante positivo. "Em bairros onde a gente via o tráfico em plena luz do dia, hoje isso não ocorre mais. Temos feito patrulhamento comunitário e a população tem relatado essa mudança", comemora.
Segundo ele, por duas vezes traficantes da cidade lhe ofereceram propina para amenizar as apreensões. "Isso tem ocorrido, mas realizamos um trabalho sério e temos uma equipe comprometida", reforça.
Famílias que necessitam de ajuda da GM para internar dependentes químicos podem entrar em contato pelos telefones 153 ou (11) 4591-1210. "Estamos comprometidos e essa é a intenção, que as pessoas nos procurem mesmo", conclui Mangini.
Por Michele Stella, do JJ Regional / Foto Alexandre Martins
um passo rumo a um futuro diferente na manhã da última sexta-feira. Depois de árdua batalha consigo mesmo, decidiu recorrer a tratamento especializado em uma clínica de recuperação. Mas não chegou até o local sozinho. Precisou de ajuda e o papel da Guarda Municipal (GM) da cidade foi essencial - e inédito - para tornar possível o sonho de recomeçar a vida.
Pontualmente às 8h50 de anteontem, os coordenadores da GM de Itupeva, Antônio Carlos Mangini e Nilson Liboni, estavam na frente de uma residência no Jardim Samambaia, prontos para levar dois irmãos viciados em crack para uma clínica em Jarinu, a Missão Belém. O portão marrom escuro foi aberto por uma senhora, que com os olhos lacrimejando relatou o receio de seus filhos mudarem de ideia, embora tudo já tivesse sido combinado previamente com a GM para o transporte até o local de reabilitação.
O pedido de socorro de uma mãe diante da triste situação vivenciada pelos filhos poderia ter sido repassado pelos guardas para o setor de assistência social da prefeitura. Na prática, normalmente é o que ocorre na maioria das cidades quando a questão é dependência química.
Mas o problema tem sido encarado de forma diferente pela atual administração do município vizinho de Jundiaí, que tem como prefeito Ricardo Bocalon (PT). "É um novo formato de trabalho que tem sido colocado em prática, de não fazer só a parte preventiva, mas também ajudar essas pessoas que precisam", afirma Mangini, comentando que a orientação do prefeito é de que haja interação entre todas as secretarias. "Para quê deixar o caso para a assistência social se podemos atender ao pedido da família?", indaga.
A possibilidade de oferecer esse tipo de auxílio a dependentes químicos, segundo os guardas, surgiu após parceria com a clínica Missão Belém. "Conhecemos o trabalho deles, vimos que era muito sério e descobrimos que não há problema de falta de vagas. É um serviço gratuito, eles vivem de doações e não fecham as portas para ninguém", ressalta Mangini, entrando então na casa da família para conversar com os jovens usuários.
"Eu já tinha procurado a GM antes querendo que levassem meus filhos à força. Eles explicaram que não poderia ser desse jeito. Então, assim que os meninos mudaram de ideia, pedi socorro novamente", conta a mãe dos jovens, demonstrando o desespero em seu tom de voz.
Segundo ela, a vida da família se transformou nos últimos quatro anos, quando a dependência dos dois filhos se tornou mais séria. Na casa, além dos pais e dois irmãos, moram também a mulher de um deles, de 28 anos, e um bebê de quatro meses. "Não tem condição. Eles vendem tudo, fumam crack dentro de casa. Já foram cinco televisões e meu quarto precisa ficar sempre com um cadeado para não levarem minhas coisas", lamenta a mãe.
De acordo com a mulher de um deles, há períodos em que os irmãos desaparecem, passam até cinco dias fora de casa e então retornam. "Eles voltam destruídos, sujos. Ontem, meu marido nos falou que queria mudar de vida e ir para a clínica. Mas hoje já mudou de opinião a esse respeito", afirma, segurando a filha recém-nascida no colo e dizendo ter medo de qual será o futuro da criança.
Depois de meia hora de conversa, apenas um dos jovens saiu de dentro da casa com uma sacola de roupas nas mãos. Ele se despediu da mãe e entrou no carro da Guarda Municipal, estacionado em frente. "É um alívio ver que pelo menos um deles está indo se cuidar.
Eu sou nordestino daqueles antigos, sabe, e maconheiro não é bem visto desde os meus tempos de garoto", desabafa o pai, aposentado. E a mãe completa: "Estou contente por um, mas triste porque o outro precisava ir junto." Na casa, a única renda da família vem da aposentadoria do pai dos usuários e das faxinas feitas pela mãe deles.
Recomeço
Depois de 40 minutos de viagem, o jovem de Itupeva chegou ao seu destino, em Jarinu. No local, assim que saiu do carro da GM, foi recepcionado por voluntários da casa. Junto com ele, a pé, chegou mais um homem de cerca de 40 anos, também só com uma sacola de roupas nas mãos, pedindo ajuda para se livrar do mundo das drogas. Essa é a rotina na Missão Belém de acordo com o assessor José Maciel Davano, ex-dependente químico. No local, atualmente vivem cerca de 380 homens.
"Essa é uma atitude radical pra mim. Sei que vai ser difícil, mas quero mudar de vida. Hoje eu não tenho nada, estou cansado. Tenho 27 anos e não trabalho, não tenho um carro, uma moto, nem chinelo para colocar nos pés esses dias eu tinha", relata o usuário. Ele diz ter ciência do sofrimento que causa aos pais, mas alega não conseguir sair da situação de dependência.
"Só quem vive isso para saber como é complicado. Se eu soubesse que seria assim, nunca teria começado a usar. Foi primeiro o cigarro, aí veio a bebida, a maconha, a cocaína, até chegar no crack e não ter mais volta", confessa.
Durante 20 dias, o jovem enfrentará um período de abstinência segundo o assessor da Missão Belém. Nesse período, ele não pode receber visitas da família. É a fase mais difícil e, mesmo quando ela é vencida, somente 40% dos homens continuam internados de acordo com Maciel. "O tratamento dura para sempre, porque a pessoa sempre será ex-dependente. A luta é diária", comenta, explicando que, apesar dessa realidade, no local a estimativa de tempo para o tratamento é de nove meses.
Ação contra o tráfico
Além da atuação da GM de Itupeva para ajudar dependentes químicos, a Guarda também tem intensificado o combate ao tráfico de acordo com Liboni. E o resultado tem sido bastante positivo. "Em bairros onde a gente via o tráfico em plena luz do dia, hoje isso não ocorre mais. Temos feito patrulhamento comunitário e a população tem relatado essa mudança", comemora.
Segundo ele, por duas vezes traficantes da cidade lhe ofereceram propina para amenizar as apreensões. "Isso tem ocorrido, mas realizamos um trabalho sério e temos uma equipe comprometida", reforça.
Famílias que necessitam de ajuda da GM para internar dependentes químicos podem entrar em contato pelos telefones 153 ou (11) 4591-1210. "Estamos comprometidos e essa é a intenção, que as pessoas nos procurem mesmo", conclui Mangini.
Por Michele Stella, do JJ Regional / Foto Alexandre Martins
