domingo, 13 de outubro de 2013

Mudanças à frente da Guarda Municipal de Itupeva

Os 25 anos dedicados à advocacia mais a confiança que conquistou do prefeito de Itupeva, Ricardo Bocalon, levou este jundiaiense de 52 anos ao comando da Guarda Civil daquele município. Vlademir Manzato, por sua vez, se considera muito mais um administrador do que um encarregado da corporação. Desta relação com os 81 integrantes da guarda, ele só cobra agilidade e liberdade de atuação. 

Nestes quase 11 meses de trabalho, já mudou de sede, implantou um canil e lançou uma campanha de desarmamento infantil, além de ter aberto, pela primeira vez, espaço para as mulheres. É o que ele revela nesta entrevista concedida ao JJ Regional.

Jornal de Jundiaí - O senhor é jundiaiense. O que o levou à Itupeva?
Vlademir Manzato - 
A minha formação jurídica me possibilitou assumir esta responsabilidade, que vai ao encontro do meu conhecimento de aspectos materiais e que são importantes no âmbito da Guarda Civil. Além disso, durante os 25 anos de advocacia, o prefeito Ricardo Bocalon foi meu cliente, o que permitiu criar uma relação de confiança que resultou no convite para compor a equipe.

JJ - Ao assumir a Guarda Municipal qual passa a ser o desafio?
VM 
- Atender aos anseios da população e diminuir as carências que existem no município. A Guarda Civil tem a pretensão de exercer a proteção patrimonial, que inclui o bem-estar das pessoas, a saúde, o desenvolvimento educacional e social. Então, a guarda hoje atende a todos os reclames da sociedade, desde uma solicitação de retirada de um gato de cima de uma árvore até o auxílio à Polícia Civil num confronto e o patrulhamento comunitário.

JJ - A Guarda Municipal por ser Civil possui o poder de polícia?
VM - 
Constitucionalmente, todos possuem o poder de polícia. Agora, existem as derivativas destas questões. Eu, particularmente, entendo que a guarda tem o poder de polícia, resguardando outras opiniões, porque a corporação atua e faz um patrulhamento ostensivo e que na prática acaba se caracterizando como tal. Claro que a guarda age de uma forma mais sociável, sem a burocracia que possuem outras instituições, o que a torna mais próxima da população. 

JJ - Hoje, a Guarda Civil Municipal está instalada em uma área muito maior para atender a população. Isso trará quais melhorias no atendimento a população?
VM 
- Com uma casa nova podemos desempenhar melhor o papel da corporação. Primeiro, porque estávamos em uma área afastada da população. Agora, no centro de Itupeva, temos melhor visibilidade do munícipe. Então, por isso, melhorou o acesso e a interação com a comunidade. O prefeito teve vontade política e deu autorização política para a guarda atuar na cidade.

JJ - Existem planos para ampliar o efetivo da guarda?
VM - 
Há anos Itupeva conta com o mesmo efetivo. Em 2012, inclusive, perdemos um guarda que foi vítima de homicídio. Neste momento estamos concursando mais 26 guardas e, pela primeira vez na história da corporação, teremos mulheres compondo o efetivo. Considero esta novidade essencial: serão guardas que pretendemos direcionar para o trabalho de investigação e apuração. 

Então, teremos uma corporação com 81 guardas, o que vai ao encontro das necessidades de uma cidade que está crescendo. Aliás, o ideal seria que o efetivo fosse ainda maior. Mas houve um avanço e eu tenho certeza que até o fim da administração do prefeito Bocalon teremos 100 homens trabalhando na corporação. 

JJ - Cada vez mais Itupeva tem se emancipado. Recentemente foi anunciada a instalação do fórum, uma guarda municipal mais equipada. O que o município busca, afinal?
VM 
- A busca é pela independência total. O prefeito Bocalon, aliás, nos deu carta branca para chegar a este patamar. Eu já fui presidente da Ordem (OAB - Ordem dos Advogados do Brasil), fui coordenador da campanha do atual presidente Airton Bressan. Com relação ao fórum, Itupeva era o único município do Aglomerado Urbano de Jundiaí  (AUJ) que ainda não dispunha desta ferramenta e a cidade é pujante, principalmente no aspecto econômico. 

Basta pensar que em 2000 tínhamos 26 mil habitantes e que 12 anos depois saltamos para 50 mil. Um crescimento de quase 90%. O fórum traz, aliás, esta peça que faltava para agregar esta independência que o município busca, além de ser, entre os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) o único que ainda não tinha sido estabelecido.

JJ -  Com a instalação do fórum, a guarda pode atuar em parceria?
VM 
- A relação entre a Guarda e o Judiciário deve se estreitar, principalmente porque em Jundiaí, que é a cidade-mãe do AUJ, nem sempre é possível atender os mandatos de prisão, tanto criminal, como da infância e juventude, além do resgate de pessoas necessitadas, cabendo à guarda a execução deste serviço.        

JJ - O canil é outra novidade que veio para agregar?
VM - 
O canil se faz necessário porque os cães treinados superam as pessoas no atendimento ao setor investigativo, de proteção, entre outras funções. Além disso, o Canil também vai poder auxiliar no trabalho das polícias civil e militar. Vale lembrar que o Canil ainda é um projeto embrionário, embora seja uma realidade com coordenadores que nos auxiliam.

JJ - A Guarda está lançando uma campanha de desarmamento infantil. Como deve funcionar na prática?
VM - 
Acreditamos que o papel da guarda em Itupeva, até por ser um município carente, é social. Então, as pequenas ações desenvolvidas pela corporação têm buscado atender a estas necessidades apontadas pela população. Esta campanha [uma parceria entre a Secretaria de Educação e a Guarda Municipal visa, por meio de palestras, conscientizar pais e alunos sobre o perigo do uso de armas e a eliminação dos brinquedos que sejam réplicas]  foi desenvolvida por um de nossos coordenadores, Antônio Carlos Mangini.

Fomos surpreendidos com a aceitação da população, desde os diretores das escolas até os professores e os pais. As crianças, em especial, por entenderem melhor a ideia, absorveram a campanha e está sendo maravilhoso. Este projeto é piloto, mas certamente terá a aprovação do prefeito, passando a fazer parte da realidade da cidade.

JJ - Quais são as ocorrências mais frequentes atendidas pela guarda?
VM 
- Cada cidade apresenta as suas características. Em Itupeva, o que nos chama a atenção, especialmente na área rural, onde existe um fluxo muito grande de pessoas vindas de outros lugares, são os abusos sexuais. A bolinação infantil é muito ascendente.

Prova maior foi um caso que atendemos recentemente de um homem que, após abusar sexualmente de meninas, não conseguia entender porque estava sendo preso, já que na sua cidade natal é comum este tipo de comportamento. Apesar de estarmos no século 21, existem lugares onde o abuso sexual é comum. Nestas horas é que a guarda age, como uma corporação que educa a população. 

JJ - Neste sentido, é possível que uma campanha de conscientização, assim como a do desarmamento infantil, seja realizada em Itupeva?
VM 
- Sem dúvida, este é o papel da guarda municipal. O atendimento à população tem de ser eficaz. Neste sentido, pensamos até em desenvolver uma campanha direcionada aos ciclistas. Verificamos que muitas pessoas fazem o uso da bicicleta de forma irregular, ocasionando acidentes por falta de conhecimento. Então, o nosso próximo passo será desenvolver um trabalho para que os ciclistas se conscientizem de que a bicicleta é um transporte como outro qualquer. 

JJ - Cada comandante impõe a sua marca. Como o senhor define a sua?
VM - 
Eu defendo a ideia de que um comandante da guarda é como um administrador de empresa, que gerencia uma multinacional. Então, a minha política de comando se baseia em alguns pilares: liberdade de atuação com responsabilidade, desburocratização dos processos internos e as necessidades das decisões serem tomadas rapidamente. 

JJ - Em termos de aparelhamento, como está a guarda?
VM 
- Pela primeira vez estamos utilizando armas não letais. Uma novidade para o município que tem sido feita com a ajuda da comunidade.

JJ - Qual a marca que o senhor gostaria de deixar?
VM 
- Liberdade de expressão. Evidentemente que com responsabilidade. Uma coisa eu posso garantir, jamais serei um administrador ranzinza, que não cria possibilidade aos comandados. Claro que cobrando resultados.

Márcia Mazzei, do JJ Regional